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Argumentação, como defender ideias e convencer pessoas

Sabemos que um bom texto deve trazer uma mensagem consistente e coerente e seguir uma lógica – começo, meio e fim – de fácil identificação e acompanhamento pelo leitor. Contudo, um texto opinativo, do tipo dissertativo-argumentativo, exige algo mais, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento das ideias.

Esse “algo mais” se traduz em argumentos, usados para justificar, validar e defender o ponto de vista a respeito do tema sobre o qual se escreve. O objetivo é convencer o leitor ou, pelo menos, levá-lo a pensar, a refletir sobre o assunto.

De geração para geração, quem nunca usou esse recurso?

O adolescente quer ir a uma festa; os pais dizem não. “Mas por que não?”, ele pergunta.

Os pais, então, vão defender seu posicionamento, respondendo: “Porque você ainda não tem idade para ir a festas.” ou “Você está de castigo por ter brigado com sua irmãzinha.” ou “Porque precisa estudar para as provas do colégio e não pode dormir tarde.”

O jovem, por sua vez, contrapõe: “Mas o meu amigo Mário tem a mesma idade e vai à festa!” ou “É, mas foi ela que começou, ela é que devia estar de castigo!” ou “A festa não vai até tarde e eu já estudei tudo!”

Tal como o jovem e os pais dele, estamos sempre argumentando em defesa de nossas opiniões. Argumentamos para recomendar um filme, um livro, algo de que gostamos; para justificar a tomada de uma decisão; para demonstrar a validade de um pedido, como o de um aumento de salário, por exemplo…

Argumentar por escrito

Na escrita, a argumentação também serve para justificar, defender, validar nossa opinião sobre determinado assunto. Ao argumentar, tentamos convencer, persuadir o leitor de que nosso ponto de vista a respeito do tema sobre o qual escrevemos está correto.

E, para isso, usamos vários recursos, como fatos, informações, dados, histórias, exemplos, reflexões, explicações, análises, comparações, alusões históricas, citações etc., atendendo a diversas estratégias de argumentação.

Para saber mais sobre isso, vamos fazer um exercício:

Temos um tema, globalização, e um ponto de vista a respeito do tema:

Nas últimas décadas, com a globalização, impulsionada pelos avanços da tecnologia, o mundo se transformou em uma aldeia. A esperança de que essa mudança de perspectiva fosse capaz de trazer mais justiça social e menos desigualdade econômica não se realizou. Ao contrário, o que vem ocorrendo é uma valorização massiva do ter, do ganhar, do competir. A falta de valores sociais a permear uma dinâmica de tal porte assusta, porque impede a definição de rumos e de objetivos. Aonde queremos chegar?

O passo seguinte é encontrar argumentos que justifiquem e defendam esse posicionamento. Para isso, vamos recorrer a algumas estratégias argumentativas. São elas que permitem encadear argumentos à linha de raciocínio desenvolvida no texto:

Estratégia da validação

Consiste em detalhar, esclarecer com fatos o que foi afirmado no ponto de vista, na tese sobre o tema. Em nosso exemplo, uso essa estratégia para detalhar o processo de globalização, que “reduziu” o mundo a uma aldeia:

Há muito movimento nesse nosso pequeno grande mundo. Empresas agigantam-se e ultrapassam fronteiras, espalhando capital, receita de impostos, lucros e investimentos ao redor do planeta. O dinheiro, assim pulverizado, reúne-se novamente em um e outro oásis financeiro, com o objetivo de gerar mais dinheiro, concentrando nas mãos de poucos um poder econômico que já foi sutil, eminência parda de muitos governos, mas hoje se escancara e, abertamente, controla o mundo. As nações, tentando resguardar um pouco do nacionalismo ultrapassado, unem-se em blocos, defendem mercados mais amplos, consolidam a ideia de uma única moeda. Seu propósito, contudo, é o de criar salvaguardas econômicas. A preocupação com o social fica para depois.

Estratégia de causa e consequência

Argumentar sob essa perspectiva é mostrar causas e consequências das ideias, da situação, dos fatos apresentados no ponto de vista sobre o assunto. Em nosso exemplo, uso essa estratégia para destacar a falta de valores (causa) que permeia o processo de globalização, deixando o futuro, sob essa perspectiva, incerto (consequência):

Os cidadãos do mundo são participantes involuntários desse processo intenso e transformador, mas também são, direta ou indiretamente, seus deflagradores. Nessa perspectiva, a falta de valores sociais a permear uma dinâmica de tal porte assusta, porque impede a definição de rumos e de objetivos. Aonde queremos chegar? Não temos ideia, mas continuamos a avançar e a nos surpreender e a celebrar cada nova conquista. O dinheiro estagnado, que só gera mais dinheiro, será capaz de nos dar uma resposta? O poder político, que deveria zelar pelo social, continuará subordinado às exigências do econômico? O grande será assim reconhecido só porque tem o poder de acumular cada vez mais? A solidariedade? O outro? Vamos deixar para pensar nisso depois.

Estratégia da fonte confiável

Argumentar com esse recurso é referendar, avalizar as ideias apresentadas por meio de citações de especialistas, autoridades, técnicos, analistas etc. que sejam fontes confiáveis nas áreas de conhecimento em que atuam; bem como por meio de citação de dados, informações, estatísticas, pesquisas etc., divulgados por instituições, organizações, institutos e outros similares considerados confiáveis. Em nosso exemplo, a ideia da inevitável inter-relação dos “cidadãos do mundo” é avalizada por intermédio da citação de especialista:

Os cidadãos do mundo são participantes involuntários desse processo intenso e transformador, mas também são, direta ou indiretamente, seus deflagradores. Como explica o filósofo Zygmunt Baumann, “em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas”.

Ainda em nosso exemplo, a ideia do dinheiro acumulado como solução é avalizada por meio da citação de dados divulgados por organização:

O dinheiro continua circulando e é a única ficha que temos para apostar em um mundo melhor. Contudo, como informa um relatório recente das Nações Unidas, “por mais de uma geração, a renda do 1% mais rico do mundo cresceu em um ritmo duas vezes maior que a dos 50% mais pobres”. Assim, será o dinheiro e, com ele, a ideia do ter em detrimento do ser, que nos indicará o melhor caminho?

Estratégia da exemplificação

O exemplo é um recurso argumentativo muito usado, pois ajuda a “ilustrar” as ideias apresentadas, permitindo ao leitor uma “visualização” imediata do que o autor do texto está querendo dizer. Em nosso caso, um exemplo é utilizado para mostrar ao leitor o tipo de iniciativa a que os mais ricos podem recorrer para cooperar com a diminuição das desigualdades do mundo:

Será o grande, só assim reconhecido por seu poderio econômico, suficientemente esperto para se dar conta de que não pertence a uma casta de eleitos (por um certo deus dourado), mas que pode se tornar efetivamente grande caso invista na certeza de um futuro para a aldeia? Exemplo disso é o movimento liderado pelo cofundador da Microsoft, Bill Gates, e pelo megainvestidor Warren Buffett, envolvendo quarenta bilionários norte-americanos e suas famílias. O compromisso deles é doar pelo menos metade de suas respectivas fortunas para projetos sociais que tenham real impacto na diminuição da desigualdade econômica.

Estratégia da analogia

Cabe aqui explorar situações análogas, similares àquelas sobre as quais se discorre – em geral, mais simples ou conhecidas do leitor –, com o objetivo de esclarecer pontos eventualmente complexos ou obscuros da apresentação de ideias. Em nosso caso, a história do rei Midas ajusta-se bem para mostrar, por analogia, que o acúmulo de riqueza e a obsessão por ter não parecem nos levar a um mundo melhor:

O dinheiro continua circulando e é a única ficha que temos para apostar em um mundo melhor. Será o dinheiro e, com ele, a ideia do ter em detrimento do ser, que nos indicará o melhor caminho? Faremos como o lendário rei Midas, que recebeu o dom de transformar em ouro tudo o que tocava e só percebeu que sua dádiva era, na verdade, uma maldição quando já estava quase morrendo de inanição e de solidão, uma vez que os alimentos que pegava e as pessoas que abraçava também se transformavam em ouro?

Argumentar é preciso. Quando se sabe como fazer, fica muito mais fácil!

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Para reforçar a argumentação

Quantas e quantas citações (frases interessantes) de pessoas famosas ou nem tanto já ouvimos ao longo da vida? Que tal parar um pouco e pensar mais profundamente a respeito delas? A principal vantagem é que, eventualmente, podemos aproveitar algumas dessas citações para reforçar (sustentar, dar mais fundamento) à defesa de nossos pontos de vista.

Vamos, então, dar uma olhada em algumas dessas citações que, ao definir tão completamente uma determinada situação ou um peculiar comportamento, acabaram por formar um vocabulário extra, ao qual podemos recorrer para dar mais ênfase e credibilidade (histórica) à nossa argumentação:

“A sorte está lançada!”

Traduz a expressão latina “Alea jacta est!”, que o imperador Júlio César  (100 a.C. – 44 a.C.) teria dito quando resolveu marchar sobre Roma, atravessando o Rubicão (riacho entre a antiga Gália e a Itália), para derrubar seu rival Pompeu. A frase costuma ser empregada quando se toma uma decisão grave, porém enérgica, depois de muita hesitação.

“Voz do povo, voz de Deus.”

Também de origem latina, a expressão “Vox populi, vox Dei.” pode ser usada quando se credita inspiração divina às manifestações instintivas do sentimento popular.

“O Estado sou eu!”

Ou, como disse o rei Luiz XIV, o “rei sol” (1661-1715), para afirmar-se acima das leis e da conveniência da nação, “L’État c’est moi!”. Costuma ser empregada, ainda nos dias de hoje, para exemplificar casos extremos de autoritarismo e de personalismo.

“Ser ou não ser… eis a questão!”

Escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), a famosa frase “To be or not to be… that’s the question!” faz parte do monólogo de Hamlet, na peça de mesmo nome, em que o personagem reflete sobre as mais profundas questões da existência. Usa-se a propósito de situações difíceis, em que a indecisão se torna paralisante.

“Vim, vi, venci.”

Trata-se de outra expressão do criativo imperador romano Júlio César. Com a frase “Veni, vidi, vici.” comunicou ao Senado sua imediata e irresistível vitória sobre Farnaces, rei do Ponto. Emprega-se para indicar uma vitória obtida rapidamente.

“Carpe diem!”

Na tradução literal, “Colha o dia!”, mas o sentido dessa expressão de origem latina está mais próximo de “Aproveite o momento!”. Criada pelo poeta romano Horácio, que viveu no século I a.C., a frase nos lembra que a vida é curta e que devemos usufruí-la integralmente, sem desperdício de tempo.

“Presente de grego”

Não é uma frase, mas um mito da história, que se transformou em uma expressão capaz de dar a ideia de que alguma coisa ou alguém, aparentemente favoráveis aos nossos interesses, acabou se revelando contra nós (“O que recebi dele foi um “presente de grego”!). A origem desse mito remonta à Antiguidade, quando gregos e troianos se digladiavam em guerra interminável e a cidade de Troia, mesmo totalmente sitiada, resistia. Para conquistá-la, os gregos recorreram a um ardil. Construíram um imenso cavalo de madeira, deixaram-no às portas da cidade e fizeram com que os troianos acreditassem que se tratava de um presente. O cavalo, cujo bojo estava repleto de guerreiros gregos, foi transportado para dentro de Troia, causando a derrota da cidade. Pode-se usar, com igual significado, a expressão “Cavalo de Troia”.

“Calcanhar de Aquiles”

Trata-se de outra expressão mitológica usada para assinalar o ponto fraco de alguém. (“Hei de descobrir seu “calcanhar de Aquiles”!) Conta a lenda que, quando pequeno, Aquiles foi mergulhado pela mãe num lago mágico, o Estinge, que tornava as pessoas invulneráveis. Mas, como a mãe o segurou pelo calcanhar, a água não atingiu essa parte do corpo do herói e foi justamente aí que Páris o feriu na guerra de Troia (a mesma do “presente de grego”).

“Negócio da China”

Quem não quer um? Trata-se de uma expressão empregada para indicar uma negócio de pouco risco e muito lucro. Está associada aos primórdios do comércio marítimo e, especialmente, às famosas viagens de Marco Polo ao Oriente, descrito, na época, como um lugar de riquezas incalculáveis.

“Ovo de Colombo”

Frente aos céticos, que colocavam em dúvida o mérito de suas descobertas marítimas, Cristóvão Colombo os desafiou a colocar um ovo em pé. Frustradas todas as tentativas, Colombo quebrou ligeiramente uma das extremidades do ovo e, com isso, conseguiu seu intento. Naquela época, como hoje, o sentido continua o mesmo: tudo parece muito fácil… depois de feito.

 

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