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A SENHORA DA CASA

A senhora da casa 2

A casa está de pé

ninguém sabe como,

há rachaduras, buracos,

reentrâncias,

lascas nos ladrilhos,

gordura acumulada,

estranhas ressonâncias,

falta de gravidade

nas repentinas diferenças

de piso.

O novo e o velho

se misturam

num charme inesperado,

por mais moderno

o móvel se encaixa,

por mais antiquado

pode ser útil.

Na mescla do antigo

e da vanguarda.

do desconjuntado

e do aproveitável,

a casa vai se aguentando,

cheia de feridas

e de lembranças.

Um dia teve quintal

espaçoso, flores

e plantas

entrelaçadas,

ervas exóticas

para chás curativos.

Um dia teve também

a senhora da casa,

oprimida, mas gentil,

capaz de unir

com graça

as inconciliáveis diferenças

entre o caipira e o urbano,

o mágico e o rotineiro,

o divino e o profano.

Talvez por ela,

que já se foi,

a casa permaneça de pé,

como numa homenagem

póstuma.

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INSTANTE

Fruta sumarenta 1

Um beijo em sua boca,

fruta sumarenta,

bater de asas

de um beija-flor,

rápido e suave

instante de beleza,

flagrado em pleno ar.

Um beijo em sua boca,

selo do silêncio

sobre um segredo eterno,

nunca mais.

FUNDO DE MIM

 Quando foi que desaprendi

de chorar, que as lágrimas

não secaram ou congelaram

mas ficaram contidas

uma lembrança úmida

empoçada em caminhos internos.

E se não choro

minh’alma doída

não encontra vazão para o sofrer

resta, então, ao sentimento

assim retido, aprisionado, torturado

fluir e fluir e continuar fluindo

pelas águas subterrâneas.

rios subterrâneos 6

Poço sem fundo,

mesmo assim

o afogamento

é impossível.

As profundezas

da mágoa

encobrem a dor

apenas por instantes,

pois tão logo mergulha,

flutua de volta,

como uma rolha.

caverna1

CANÇÕES DA ALMA

Canções da Alma 1

Mágico encanto

de sereias

silvar de cobras

arpejo de serafins

volteios

nostalgia

remansos

sem fim

vozes

caminhos

destino

feliz

murmúrios

rios interiores

gritaria

fantasmagórica

sem sentido

ruim

tristes cismas

melancolia

crepúsculo

lembranças

enfim

canções

que a alma canta

simplesmente

assim.

Canções da Alma 9

Mergulho

Mergulho 6

 

 

 

 

 

 

Ser aquático,

mergulhar

nas profundezas

do oceano,

escapar do etéreo

para o aconchego

do cristalino

manto.

Estender-se leve

ao balanço das algas

e, como as tartarugas,

sombrear

as transparências,

pintalgando de prata

os cardumes

em efervescência.

Tomar impulso

de golfinho,

defendendo-se

como o marlim

e sua espada,

assustando curiosos

feito moreia

entocada.

Mergulho 4Envolver-se

no redemoinho

das ondas,

temendo as manchas

aladas e seus bicos

pontiagudos

a furar

a flor das águas.

Desmanchar-se em

miríades de cores

e formas submarinas,

fluir

pelas correntezas,

acompanhando as marés

da lua eternamente

enamoradas.

Esquecer,

em abandono submerso,

a dimensão seca

da vida.

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