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Posts marcados ‘poemas de Ana Setti’

Haicai 11

 

Vestido ao vento,

um jardim florido

pendurado no varal.

flores-ao-vento-22

 

 

 

Que se vá

cropped-folhas-de-outono-2

Deixe que eu a assopre

deixe que se vá

no mar de emoções

em que mergulho

ela é como

a franja branca

a renda espumante

da onda majestosa

muito, pela beleza da forma

nada, pela essência que nem

rastro deixa

então, que o vento a leve

que a espalhe, que a dissolva

que apareça, mas que também desapareça

como se não fosse

mesmo tendo sido alguma vez

tristeza.

 

Vento e tempestade 2

Aquarela VII

A areia das praias

dunas, desertos

foi parar no céu

espatulada

em nuvens prateadas.

Por um longo instante

o mundo ficou virado

de ponta-cabeça.

E então

como se nada fosse

tudo se desfez.

O pó feito de água

escoou, escorreu

suavemente

pela ampulheta

do horizonte.

Ampulheta 2

ACALANTO DE UM CORPO SÓ

Sinto sua falta,

mais do que tudo

um imenso vazio,

como se nenhum outro

fosse entender de novo

meu canto, meu ritmo, meu sonho,

como se temesse

quem tentasse ou pudesse

apagar o calor que ainda vibra

em cada ponto, em cada pelo,

em cada dobra e recanto do meu corpo.

Sinto saudades

de alguma coisa indizível,

impalpável, confusa,

uma sensação de ter,

não tendo,

de amar,

sem o objeto do amor,

de perder

o que nem conquistei,

de algo bom,

que não foi por completo,

uma sensação de teria sido.

Sinto sua falta,

não sei onde anda

ou se me esqueceu,

meu corpo sente falta

do seu corpo

e procuro acostumá-lo à ideia

de que já o perdeu.

Amor separação 1

Diário

 

Guarujaquarela1

Molhada,

descabelada,

zonza,

saí assim

da minha

primeira onda.

Na arrebentação,

apavorada,

fui coberta,

arrastada,

envolvida

por sua trama

grossa

e espumosa.

Depois do medo,

o gozo,

sobrevivi

mesmo encharcada.

Feito zumbi,

aos olhos

de quem olhava,

me descobri

rindo sozinha,

bêbada

de água salgada.

 

Círculo

Cobra 1

Se os animais

falassem

e pensassem

e agissem,

montando estratégias

de sobrevivência –

como nós -,

também seriam

inconformados

com os próprios

limites;

insatisfeitos,

mesmo tendo,

ou não, e

consumidos pela

ambição voraz,

como nós.

Abençoados,

então, porque

não falam,

não pensam,

não agem,

sem consciência

de quão vasta

é a ignorância

e tão grande

o mistério.

Melhor voltar

ao Paraíso,

recuperar

a inocência

animal de

Adão e Eva.

Ironia ter sido

uma serpente

a causadora da

queda.

Cobra 2

 

TUDO OU NADA?

Patos na lagoa 4

Cansaço de tudo

de pensar no hoje

de esperar pelo amanhã

das tarefas obrigatórias

da posição defensiva

diante das ameaças

do mundo

do próximo

do distante

do sucesso do outro

da ilusão de dar valor

a esse sucesso

ou ao próprio

tão passageiro

está sendo

já foi

e lá vem outra onda

de fatos, acontecimentos

eu dentro, eu fora

sim e não, tanto faz

por isso, o cansaço

o desapego

pois o que é o viver

senão ser parte

de tudo, de um todo

assim como a pata

que ciceroneia

os patinhos na lagoa.

ALGUÉM, NINGUÉM

 

Cores 2

O que seria de mim

se não existisse

o outro?

Um náufrago solitário,

à procura de um “Sexta-Feira”,

pois é para o outro

que falo,

é no outro

que me reflito,

e me descubro,

é por causa do outro

que me expando

e me limito,

Cores 4

e é com o outro

que aprendo

a amar,

que meus interesses

ganham sentido,

meus projetos,

consistência,

meus pensamentos

e sentimentos,

um rumo

de bumerangue.

Pelo outro

eu avanço,

eu me aprimoro,

eu me desafio.

Cores 5

Sem o outro,

por falta de ressonância,

eu seria alguém

que nunca se realiza.

Aquarela VI

DSCN1183-OK

Pela minha janela

quando a noite acorda

e luzes vívidas espalham-se

em direção à profundidade escura

do horizonte

tenho a cidade a meus pés

tudo muda

quando o dia amanhece e

pela minha janela

fico à mercê da cidade

com sua claridade cambiante

de cores típicas

que nunca são as mesmas

vez ou outra a amplitude do céu

serena imutável

altera-se

por conta de elementos dissonantes

nuvens chuva raios bruma

pássaros em voo tão próximo

aviões de carreira

que sulcam trilhas retilíneas

metálicamente brilhantes

pela minha janela

aprecio os tons esmaecidos

do poente

o nascente vibrante

um quadro mutante

uma obra aberta

uma pintura sempre renovada

uma sinfonia

que enche minha casa

de intangível beleza

DSCN1197.jpg

Deixa passar…

Mais sábio tirar

o amor do sofrimento

que não é inerente

mas provocado

por causa do excesso

ou por falta, descaso

se há uma média

uma dose certa

desse amor

que tudo permeia

fluindo como água

estimulando a vida

por onde passa

talvez esteja aí mesmo

nesse movimento

sem mistério

nada de segurar

prender o amor

dele tomar posse

deixá-lo passar

eis a melhor receita

nem muito, nem pouco

apenas não contê-lo.

 

 

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