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Jeito de ser–estilo: um estudo sobre Fernando Pessoa

O renomado poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) não se contentou em ter um único estilo e inventou heterônimos – nomes imaginários para pessoas fictícias – que, por possuírem um jeito de ser diferente do seu, acabaram por refletir, na escrita, um estilo muito próprio.


Vamos conhecer alguns desses heterônimos, as características atribuídas a eles por Fernando Pessoa e seus estilos, que correspondem exatamente ao jeito de ser, de entender a vida e de “viver” de cada um, de acordo com seu criador:

Alberto Caeiro

Segundo a biografia inventada por Fernando Pessoa, Caeiro, nascido em Lisboa, era órfão de pai e mãe, e passou a maior parte de sua vida no campo. Talvez, por isso, apreciasse a simplicidade, a natureza, e preferisse o sentir ao pensar, fazendo das sensações o filtro pelo qual absorvia e entendia as coisas do mundo.

Veja como esse jeito de ser se reflete no estilo de seus versos:


(trecho de “O Guardador de Rebanhos”)

VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que não o conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou…

 

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!…”

 

Ricardo Reis

De acordo com Fernando Pessoa, Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Frequentou um colégio de jesuítas e, depois, estudou medicina. Era monarquista. Por isso, quando Portugal tornou-se república, optou por exilar-se no Brasil.

Diferentemente de Caeiro, Ricardo Reis pensa sobre o mundo e, especialmente sobre a decadência do mundo. Para fundamentar esse seu entendimento sobre a realidade, procura realçar, nos versos, os valores da Antiguidade, utilizando conceitos do paganismo, figuras da mitologia clássica e o “Carpe dien!”, o “Aproveite o momento!”, do poeta romano Horácio.

(trecho de uma de suas Odes)

“O deus Pã não morreu,

Cada campo que mostra

Aos sorrisos de Apolo

Os peitos nus de Ceres –

Cedo ou tarde vereis

Por lá aparecer

O deus Pã, o imortal.

 

Não matou outros deuses

O triste deus cristão.

Cristo é um deus a mais,

Talvez um que faltava.

Pã continua a dar

Os sons da sua flauta

Aos ouvidos de Ceres

Recumbente nos campos.

 

Os deuses são os mesmos,

Sempre claros e calmos,

Cheios de eternidade

E desprezo por nós,

Trazendo o dia e a noite

E as colheitas douradas

Sem ser para nos dar

O dia e a noite e o trigo

Mas por outro e divino

Propósito casual.”

 

Álvaro de Campos

Enquanto Caeiro “sente” o mundo, especialmente pelo viés da simplicidade da natureza, e Reis “pensa” o mundo com base nos valores clássicos e na fugacidade do momento, Álvaro de Campos coloca-se no presente, avaliando seu tempo com um olhar pessimista e expressando suas reflexões com agressividade. A biografia, que dá fundamento a esse estilo, registra seu nascimento em Tavira, ao sul de Portugal, em 1890. Engenheiro de formação, evitou exercer a profissão, por não se sentir adequado para a burocracia e a rotina de um escritório.

(trecho de “Ode Triunfal”)

“À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

(…)”

Fernando Pessoa, ele mesmo

Nascido em Lisboa, em 1888, ficou órfão de pai aos 5 anos de idade. Sua mãe casou-se novamente, com um militar que foi exercer funções diplomáticas na África. Lá, Fernando Pessoa ficou até 1905, quando resolveu regressar sozinho a Lisboa. Começou, então, um curso de filosofia, que não concluiu, e firmou-se no cargo de correspondente comercial em linguas estrangeiras, que exerceu até o fim da vida, em 1935.

Sua obra poética era, na ocasião de sua morte, quase que completamente ignorada pelo grande público, mais afeito a uma leitura de menor profundidade e angústia existencial. Fernando Pessoa, no entanto, tinha consciência da importância de sua vocação e à ela se dedicou com determinação e paixão, dolorosamente indiferente à incompreensão de seus contemporâneos. “Mensagem”, que recebeu o prêmio correspondente ao segundo lugar em um concurso oficial de poesia, foi a única de suas obras em português publicada em vida.

(um poema da obra “Cancioneiro”)

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.”

 

(Fonte de pesquisa: “Língua e Literatura”, Faraco & Moura, Editora Ática.

Poemas transcritos de “Fernando Pessoa – Obra Poética”,

Editora Nova Aguilar / 1976)

 

Deu para perceber quanto e de que forma o jeito de ser de alguém transparece na escrita? Repare no teor, na essência dos poemas de cada heterônimo e do escritor real. Observe a escolha de palavras, de imagens, de referências, que dão fundamento a cada visão de mundo. Veja como se modificam a construção de frases e o uso da pontuação de estilo para estilo.

Álvaro de Campos gosta de usar o vocativo e a onomatopéia (Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno! / Ó clamoroso chamamento…) para realçar suas ideias, torná-las mais dramáticas, veementes, apoiando-se ainda numa pontuação enfática.

Ricardo Reis prefere a inversão e a elipse (Não matou outros deuses / O triste deus cristão…; Mas adorar devemos / Seus vultos como às flores…), buscando dar uma elegância, uma sofisticação à forma de seu texto, tão clássica quanto as referências mitológicas às quais recorre em termos de conteúdo.

Alberto Caeiro, por sua vez, utiliza frases na ordem direta, realçando a clareza e a ausência de sofisticação de suas ideias (O espelho reflete certo; não erra porque não pensa… / Penso em ti e dentro de mim estou completo… / Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo…), o que está perfeitamente adequado a quem prefere “sentir” o mundo mais do que “pensar” sobre ele e para quem tudo se explica por meio da simplicidade da natureza.

Se cada heterônimo tem um único estilo, específico, característico e identificador, Fernando Pessoa, poeta, como seria de se esperar, possui todos eles misturados, o que acaba por compor um outro estilo extremamente reflexivo, filosófico, e muito mais amplo, abrangente, profundo e instigante do que qualquer de seus heterônimos.

No poema “Autopsicografia” (um título, aliás, bastante curioso, que remete diretamente à essa sua capacidade de fingir ser outro alguém), utilizado para exemplo, podemos reconhecer um pouco de Caeiro na simplicidade da forma. Contudo, o conteúdo da mensagem é muito mais profundo, amplo e abrangente do que aquele expresso pelo heterônimo. Ao criar um forte contraste, a simplicidade da forma, no poema de Fernando Pessoa, serviu para realçar a sofisticação do conteúdo, causando um efeito ao mesmo tempo envolvente e instigante.

Veja também Jeito de ser-estilo: como se refletir neste espelho?

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O ponto de vista do observador

 knutunico1Ser rejeitado, qualquer que seja a circunstância, é um sentimento doído, que abala a confiança em si mesmo e põe por terra toda a autoestima construída com tanto esforço.

Não importa muito de onde vem a rejeição – familiares, amigos, colegas… -, o que importa é a dor sentida e a forma como lidamos com isso.
Toda essa imensa mágoa, no entanto, talvez pudesse  se resumir a uma questão de perspectiva. Quem é o observador?

  

Ao estudar o microcosmo dos elementos atômicos – componentes essenciais do tecido formador da realidade em que vivemos – os cientistas estranharam o comportamento das partículas – os microscópicos “pontos” de matéria que compõem a estrutura do átomo. Ao fazer experiências, observaram que as partículas podem se comportar simultaneamente como ondas.

Buscando detectar quando os elementos atômicos agiam como partículas e quando se comportavam como ondas, os estudiosos foram surpreendidos com a constatação de que só dependia deles obter um ou outro resultado.

Verificaram que a natureza do comportamento dos elementos atômicos se estabelecia pela expectativa expressa do observador. Onde se esperava encontrar partículas, lá estavam elas; onde se esperava encontrar ondas, também lá estavam elas.

Era como se o esperado se refletisse na experiência ou, explicado de outra maneira, não existiriam propriedades objetivas na realidade, independentes da mente do observador. A esse “fenômeno” foi dado o nome de “colapso da função de onda”.

 

Quem é o observador quando nos sentimos rejeitados? Nós ou o outro?

Será que estamos partindo do ponto de vista do que pensamos sobre nós ou do que supomos que o outro pense sobre nós? Há de fato uma rejeição ou simplesmente um “não estou nem aí”. Isso porque o outro – e somos o outro em muitas situações – tem mais com o que se preocupar, como suas próprias inseguranças e medos.

Assim, será vantajoso dar ao outro – um ser humano tão cheio de incertezas quanto nós – esse tremendo poder? De decidir, avaliar, dar peso e forma ao nosso valor?

Cultivar a rejeição só parece ser vantajoso quando se transforma em justificativa para não olharmos para nós mesmos, em busca do nosso próprio valor.

 

 “Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?”
em poema de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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