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SOLUÇÃO

 

cachorro uivando 3

Uivava muito e sofridamente de dia e de noite, lua nova ou cheia.

Se fosse no campo ou se ele fosse lobo, vá lá, mas era um cachorro branco, raça indefinida, espadaúdo e urbano, uivando e tirando do sério os vizinhos das casas e dos prédios do entorno.

De tudo um pouco os donos tentaram: remédio, veterinário, reza brava, aconchego, brinquedo de bola, corrida, cala a boca, chamego, nada resolvia e o cachorro uivava triste, coração partido, tirando o sossego de quem ouvia, enchendo os dias de melancolia.

Então, tiveram uma ideia ou será que veio de alguém um conselho?

Sabe-se que, um belo dia, ou será que foi de noite, se ouviu o dono bravo com o cachorro: Fica quieto! Sentado! Sossega! E o cão, inquieto, rosnava e não sossegava.

O que estava acontecendo? Que solução haviam encontrado?

A partir daí, nunca mais uivou; brincava, serelepe. Até se podia dizer que sorria e latia muito e alto, como a mostrar quem mandava, pois ao lado dele agora corria e independente se mostrava mais um vira-lata, só que preto, porte miúdo, em tudo diferente do outro, mas solidário na jornada.

Enfim, um amigo, um companheiro.

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Tempos modernos… Bip!

Hoje tudo começa ou continua ou se expressa por meio de barras numéricas. Um bip contido e pronto. Parece mágica e aparece na tela o preço da peça. Menos dinheiro no bolso, mas quanta rapidez, presteza. Depressa.

Depois, vêm os outros caixas, com os quais se conversa intimamente, olho no olho, eletrônico. Não erre, não pense, não esqueça. Seja tão automático quanto o relacionamento. Lembre-se da senha…bip…e dos dados…bip, bip…que asseguram que aquela combinação numérica é a correta.

Memorize, não escreva, não deixe jamais que alguém veja a sua senha, senhas, pois há muitas, em demasia, no seu caminho já sem pedras, mas repleto de chips supersônicos.

Se há muitas, não as repita, não facilite, seja criativo e, por favor, nunca, jamais, se confunda. Esse mundo clean, de números exatos, exige muito. Data de nascimento, essa é fácil! Carteira de identidade, esse é pequeno, comparado ao do CPF, aquele do contribuinte…bip, bip…controlado.

Na internet, cuidado, use com cautela cartões de crédito, de débito, boletos bancários. São muitos os números a afogá-lo, podem ser clonados, copiados, podem deixá-lo louco ou, simplesmente, endividado.

E ao telefone, costumeiramente amigável, memorize outros números, que lhe dão acesso aos recados, esclarecimentos, soluções, e não se envergonhe de responder, por um lapso de sua educação à moda antiga, ao cumprimento da atendente eletrônica que, além de não corresponder à sua cordialidade démodé, vai colocá-lo em contato com outra imensa, infinita, imemorável carreira de números. Acesse 1 para…, 2 para… e assim vai, num crescendo de expectativa, pois nem sempre naquela lista está o que se precisa. Às vezes, no fim do túnel desses tempos modernos, encontra-se, como água no deserto, uma possibilidade de voz humana: “Acesse o 9 para falar com um de nossos atendentes…”. Então…bip, bip…aguarde.

Antes disso, porém, você precisará ter se lembrado de sua senha, ter teclado certo todos os números existentes em seu cartão de plástico e, talvez, os do RG e CPF, para, quando for atendido, por medida de segurança, lembrar a data de seu aniversário e remoer seu passado, trazendo à tona o nome do pai, da mãe e de um espírito que precisa ser santo, para se recuperar ileso de tanto martírio – pelo menos, eis a compensação – contemporâneo, na moda, absolutamente fashion!

 

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