No começo, foi a palavra – solitária; depois, a frase – transmitindo uma unidade completa de pensamento; enfim, veio o texto – frases coerentemente encadeadas, desenvolvendo um raciocínio de sentido completo. Para que o texto expressasse adequadamente a ideia, foi preciso reunir vocabulário – variado e rico de sentidos – e também escrever tudo corretamente, construindo frases precisas (de acordo com o pensamento do autor) e bonitas (que envolvessem o leitor). O que falta agora, para que nosso texto tenha uma FORMA impecável? A PONTUAÇÃO.
A pontuação, em um texto, equivale à gesticulação, à entonação, à emoção, às pausas da respiração, com que acentuamos nossa fala cotidiana.
Quando conversamos, naturalmente fazemos pausas para respiração, gesticulamos, somos veementes, gritamos, sussurramos, valorizamos determinada palavra ou frase com a ênfase apropriada, pomos vibração, ou não, no que dizemos etc.
Quando estamos ao vivo e em cores com outras pessoas, contamos com muitos recursos para nos expressar. Quando estamos frente a frente com um papel ou uma tela de computador, imaginando a reação do leitor (genérico) a cada frase que escrevemos, a tarefa de se expressar com clareza pode se revelar mais difícil.
AINDA BEM QUE EXISTE A PONTUAÇÃO!
A pontuação existe para isso mesmo, para dar clareza e precisão à expressão de nossas ideias por escrito; para pôr vibração, dar ênfase e emoção ao nosso texto; para substituir o gesto, a veemência, presentes nas conversas; para indicar as pausas da respiração…
E até para indicar corretamente os destinatários de uma herança, como nos mostra, com humor, a história a seguir:
A HERANÇA QUE DEPENDIA DA PONTUAÇÃO
(Transcrito e adaptado de “Seleções” / edição fevereiro 99)
“Foi encontrado o seguinte testamento:
Deixo meus bens à minha irmã não ao meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres.
Quem tinha direito aos bens? Eram quatro os concorrentes.
O SOBRINHO pontuou o texto da seguinte forma:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.
A IRMÃ pontuou assim:
Deixo meus bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.
O ALFAIATE fez a sua versão:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.
O PROCURADOR DOS POBRES, por sua vez:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!”
Deu para sentir quão inestimável é o recurso da pontuação?
Use-a com BOM SENSO (a mais fundamental das regras).
Pratique também “olhar” para um texto, procurando observar como o autor (e o tradutor, no caso) usou de forma criativa e adequada (visando dar clareza, precisão, ênfase, vibração etc. à sua mensagem) o inestimável recurso da pontuação:
“Entretanto, em alguns lugares as novas forças eram mais criativas. Acima de tudo, na Península Itálica, algo de notável emergia: o Renascimento já começava a orientar a mente dos homens por novos caminhos. Já se passara quase um século desde que Giotto terminara seus afrescos sobre a vida de São Francisco, em Assis, e a pintura europeia tinha ganho – quase literalmente – uma nova dimensão. Já em Florença, o menino Fra Angélico começava a aprender como segurar um pincel e o jovem Donatello, um cinzel. O novo movimento nas artes plásticas haveria de se espalhar pela literatura, pela política, pela filosofia e iria substituir a alquimia pela ciência, a superstição pela experiência e o preconceito pela lógica. Em 1.394, Petrarca e Bocaccio não mais viviam, mas os ecos literários que haviam partido das cidades italianas começavam a atingir locais distantes como Londres e Kent, onde Geoffrey Chaucer (que desfrutava ocasional proteção do Rei Ricardo II) já se atormentava escrevendo seus ‘Canterbury Tales’.”
(Trecho do Capítulo I – “Portugal no Mundo de 1.394” -, reproduzido do livro “Dom Henrique, o Navegador”, escrito pelo diplomata inglês John Ure e publicado, no Brasil, pela Editora Universidade de Brasília, em 1985, com tradução de Paulo de Góis Filho)
Veja outras dicas desta série:
1) Forma & Conteúdo: a anatomia de um texto
2) A estrutura lógica de um texto
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