Prosa, poesia, conexões quânticas, dicas de redação e de leitura, comentários, reflexões… Palavras em infinito movimento!

Arquivo para agosto, 2010

Os outros sentidos das palavras

Uma boa escolha de palavras, ou seja, a utilização de um vocabulário adequado (à mensagem e ao público ao qual a mensagem se destina), é de grande valia para o desenvolvimento de um texto claro, preciso, “colorido”, capaz de envolver, esclarecer e persuadir o leitor e de incentivá-lo a refletir.

Já vimos por aqui alguns recursos que nos permitem ampliar nosso vocabulário e usar, com inventividade, as palavras e os sentidos das palavras, visando estimular a imaginação do leitor.

Agora, vamos voltar às palavras, buscando observar outros de seus sentidos, ainda não revelados, que podemos aproveitar em benefício de nossos textos.

SENTIR AS PALAVRAS

A proposta é incentivar você a “sentir” as palavras, além de entendê-las. Isso porque as palavras podem “soar” ou ser percebidas de diferentes formas – alegres, animadas, duras, melancólicas… -, possibilitando sua utilização em outros, até então, insuspeitados sentidos.

Vamos experimentar?

Relacione quantas palavras quiser para cada uma das categorias a seguir, de acordo com o “som” ou a “sensação” que a palavra suscita em você.

QUENTES

MELANCÓLICAS

PERFUMADAS

RITMADAS

DELICADAS

DURAS

COLORIDAS

Exemplo:

Para a categoria Quentes, escolho, de acordo com a sensação que tenho ao ouvi-las ou ao escrevê-las, as seguintes palavras:

Vulcão

Camelo

Sangue

 

Espesso

Corpo

Para a categoria Duras:

Cortante

Grito

Tragédia

Ruptura

Perda

Para a categoria Perfumadas:

Morango

Jasmim

Sândalo

Aroma

Amanhecer

“SINTA” AS PALAVRAS,

PARA PODER TORNÁ-LAS

SUAS CÚMPLICES.

DEFINIÇÕES ENFÁTICAS

Agora que você “sentiu” as palavras de um outro jeito, tente aproveitar mais esse recurso para escrever definições para alguns conceitos (você tanto pode optar por uma definição literal – o que o conceito quer dizer -, como por uma definição pessoal, subjetiva – o que o conceito significa para você).

Em um ou em outro caso, procure usar palavras apropriadas, que “soem” de acordo com o sentido (literal ou subjetivo) do conceito.

Exemplo:

Vou definir o que a palavra Caos significa para mim (preferi o conceito subjetivo ao literal). Como o sentido dessa palavra me remete a algo áspero, duro, melancólico etc., vou procurar, ao escrever sobre o tema, utilizar palavras duras, melancólicas etc. Assim:

CAOS: Ruptura, explosão, tudo ruiu, nada restou. Talvez ainda sobre uma esperança: de que não haja vazio algum, de que a perda seja aparente, de que a luz esteja apenas escondida atrás da densa escuridão.

Observe como a escolha de palavras apropriadas (ruptura; explosão; tudo / nada; ruiu; restou; vazio; perda; aparente; apenas; escondida; densa; escuridão) valorizam, fazem vibrar, dão colorido ao teor (melancólico, áspero, duro) da mensagem.

AGORA É A SUA VEZ!

Defina cada um dos conceitos a seguir, utilizando as palavras apropriadas:

PLENITUDE

 

FRÁGIL

 

CAOS

 

ROTINA

 

SAUDADE

 

OUSADIA

 

FELICIDADE

 

Não deixe de ver também:

A ARTE DE VIRGULAR, um guia prático para o uso da vírgula.

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Pratique a poesia

Pode-se dizer que há dois tipos básicos de apresentação dos textos. São eles:

Prosa – texto corrido, a expressão natural da linguagem escrita, que não está sujeita a métricas, versos ou outro tipo de cadência ritmada. É a linguagem objetiva, direta, usual, típica das conversas.

Poesia – texto composto por versos (livres ou com rima), frases justapostas, que obedecem a um ritmo, possuem uma harmonia intrínseca. É a linguagem subjetiva, emocional, que possui ritmo próprio. Verso: cada frase de um poema.

Vamos praticar a escrita de textos poéticos?

Um exemplo:

Tendo como inspiração a imagem de um Girassol, busco, mentalmente / emocionalmente, palavras que combinem com a figura (a partir das minhas referências pessoais). Em geral, vêm à tona substantivos, adjetivos e verbos.

No meu caso, associei a figura a:

sol; girar; rodopio; luz; amarelo; calor; beleza; natureza; infinito; mistério; vida; prazer de viver; instante; momento; felicidade; força; realização.

Contemplo de novo a imagem e deixo que essas palavras, que anotei à parte, me conduzam a uma linha de raciocínio.

Defino, então, que vou escrever sobre a flor na perspectiva do astro que lhe cedeu o nome – o sol -, explorando as semelhanças e as diferenças existentes entre um e outro.

Assim:

Sobre astros e flores

Gira, rodopia, em calor amarelo, caramelo, o sol,

no infinito sem cor definida,

a não ser a do mistério.

Cá embaixo, presa na terra

a flor amarela, de calor tépido, embeleza

o amarronzado, o chão árido, o olhar tristonho.

Gira o sol sempre.

Girassol de vez em quando.

Repare que, para escrever um poema ou uma mensagem poética, o mais importante não é a rima, mas sim o ritmo que permeia todo o texto.

Esse ritmo é resultado da harmoniosa integração entre a sequência de ideias (conteúdo) e a sequência de frases que expressam essas ideias (forma), a partir da utilização de recursos como o som e o sentido das palavras, e a divisão dos versos.

Veja como esses recursos foram aproveitados na mensagem poética do exemplo:

SOM DAS PALAVRAS

“Gira, rodopia, em calor amarelo, caramelo, o sol,”

sons parecidos: gira, rodopia

calor amarelo, caramelo

som dissonante: o sol

“a flor amarela, de calor tépido, embeleza”

sons parecidos: a flor amarela / embeleza

 

 

“o amarronzado, o chão árido, o olhar tristonho.”

sons parecidos: …zado, árido

som dissonante…onho

SENTIDO DAS PALAVRAS

 

“no infinito sem cor definida,

a não ser a do mistério.”

sentidos opostos: infinito (sem definição) / definida (com definição)

sentido complementar: mistério (definido ou não, tudo é mistério)

“o amarronzado, o chão árido, o olhar tristonho.”

sentidos similares das palavras:  o amarronzado (escuro) / o chão árido (desesperançado) / o olhar tristonho (melancólico).

DIVISÃO DOS VERSOS

A divisão dos versos se dá em três sequências :

Ritmo da primeira sequência

primeira frase longa; segunda frase média; terceira frase curta

“Gira, rodopia, em calor amarelo, caramelo, o sol,

no infinito sem cor definida,

a não ser a do mistério.”

Ritmo da segunda sequência

quarta frase curta; quinta frase média; sexta frase longa

“Cá embaixo, presa na terra

a flor amarela, de calor tépido, embeleza

o amarronzado, o chão árido, o olhar tristonho.”

Ritmo da terceira sequência

sétima frase curta; oitava frase longa

“Gira o sol sempre.

Girassol de vez em quando.”

Agora é a sua vez!

Mas não se preocupe em avaliar som, sentido, e divisão de versos ANTES de escrever.

O importante, nesta fase, é se soltar, permitir-se dizer. Para isso, siga os passos sugeridos no exemplo e DEPOIS faça uma análise de seu texto, para ajustar (caso necessário) o ritmo.

Para conferir o resultado, LEIA em voz alta (com pausas para a respiração e com a ênfase apropriada) sua mensagem poética. O que você vai querer saber?

Se o seu texto passou uma mensagem (mesmo que não seja aquela exatamente que você havia se proposto a passar, porque poesia é assim mesmo: estimula variadas interpretações). Se o seu texto soa de forma agradável (tem ritmo, melodia, sonoridade).

Independentemente do resultado que venha a obter, escreva várias mensagens poéticas, utilizando diferentes figuras – fotos, recortes de revista, ilustrações de livros, cartões postais etc. – que sejam do seu agrado e, em especial, revelem-se fontes de inspiração (porque são imagens que “mexem” com você, seja no nível racional, seja no nível emocional).

Isso é prática e só a prática nos leva ao aprimoramento.

 

Não deixe de dar uma olhada nesta dica de redação:

A ARTE DE VIRGULAR

um guia prático de utilização da vírgula.

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