Prosa, poesia, conexões quânticas, dicas de redação e de leitura, comentários, reflexões… Palavras em infinito movimento!

Arquivo para fevereiro, 2009

Aquarela III

guarujaguardasolverm

 

O marido fuma

sentado na cadeira

ali ela deixa

frente à vastidão

dissipadora

do mar

ela faz cera

antes de sentar

e pegar a revista

de sérias notícias

alonga-se como se

antes talvez depois

o exercício fosse

ou tivesse sido

exaustivo

mas há uma

cadeira embaixo

do guarda-sol

protetor e

um espelho

em algum lugar

ela abre a caixinha

nem tanto pra se ver

mais essencial

é passar um pouquinho

de pó de arroz!

 

 

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Aquarela II

chuvajanela495

O mundo desaba

torrente de lágrimas

nuvens escuras raios amarelos

percussão de trovões

pouca gente na rua

é domingo

recolhimento e medo

orações

a água escorre dentro de casa

janelas fechadas

cortinas molhadas

sirenes

de repente um fog

londrino

o ar se torna espesso fumaça

o vento vem e espalha

umidade densa

entorna

penetra ultrapassa

a terra o asfalto

fica muito nítido

limpo claro

a noite recende a alfazema

e canta sem palavras

tudo passa tudo passa

 

A fantasia nos leva longe…

 

Fantasiar, em linhas gerais, é mudar a perspectiva pela qual usualmente “vemos” a realidade.

oradireisouvirestrelas2

É uma forma bem prazerosa  (e que lembra as brincadeiras de “faz-de-conta” da infância) de se soltar para escrever.

Para isso, é preciso deixar que a mente “voe” para lugares estranhos, diferentes, exóticos, onde os animais falam, as pedras têm sólidas opiniões a respeito de tudo, os heróis existem e, sim, sempre vencem no final.

Um jeito gostoso de se preparar para o passeio ao mundo da fantasia é permitir que uma ideia leve a outra, que leva a outra e a mais uma…

Uma associação de ideias pode começar com uma palavra, uma imagem, uma frase, um fato, algo que nos chamou a atenção.

 

Escolho uma palavra: desejo

Deixo minha mente “voar” e sigo, então, para o mundo do desejo, da paixão, dos amores possíveis e impossíveis. Lembro-me de um trecho de música… “O cravo brigou com a rosa…” Seria paixão não correspondida, ciúmes? O cravo teria cortejado uma margarida? Ou seria mesmo um típico caso de amor impossível?

Brinco com essas ideias e decido pelo improvável em vários sentidos. Eis minha história:

Era uma vez, em um reino até então muito sossegado, uma jovem dama da corte, descendente de família nobre (cujo brasão era o Coração), que queria muito se apaixonar. Mas não encontrava, entre os cavalheiros disponíveis, alguém por quem se sentisse atraída. Um dia, cavalgando até uma formosa cachoeira onde gostava de se banhar, perdeu o controle sobre a montaria e acabou perdida em uma floresta escura e assustadora. Com o cavalo já de novo tranquilo, percorreu algumas trilhas na mata, sem conseguir divisar uma saída. De repente, ouviu ruídos.
Era um rapaz, um valete, um criado do Reino de Espadas, como mostrava o desenho bordado em sua roupa, que caminhava furtivamente, parecendo estar atrás de uma caça. Ele a viu. As batidas de seu coração aceleraram-se. As do coração da dama também. Bastou um olhar entre eles para que soubessem. Haviam se apaixonado.
Mas não podiam se unir pelo casamento, pois eram de reinos distintos e de níveis sociais diferentes. Ela, uma dama. Ele, um simples valete. Como as labaredas de seu amor incendiassem a serenidade e a razão, impedindo que pensassem, decidiram fugir. Iriam para um lugar longinquo, onde nunca pudessem encontrá-los, onde pudessem viver intensamente sua paixão. Assim fizeram…

Naquela noite João ficou sem jantar. Por mais que ele dissesse que não havia feito nada, não acreditaram nele. Onde estavam o valete de espadas e a dama de copas daquele baralho de que o avô gostava tanto? Só podia ter sido coisa do João!

 

E você? Use a senha do “Era uma vez…”, escreva a sua história e a compartilhe aqui.

 

 

 

 

O poder das palavras soltas

Palavras soltas, sem um contexto que as ampare, são extremamente ambíguas, possibilitando inúmeras interpretações.

Exercitar-se com palavras soltas estimula a imaginação, permite que se vá longe em termos de associação de ideias, de emoções e de reflexões, o que resulta em inspiração para escrever, conversar e formar opinião, respeitando e fortalecendo a percepção pessoal sobre as coisas.

Vamos “viajar” com palavras soltas?

 

Vou “embarcar” em FRESCOR:

Frescor me lembra o orvalho da manhã; um cheiro bom de terra molhada; a chuva mansa que me surpreende ao voltar para casa em um dia quente; o gosto do sorvete; o cubo de gelo derretendo em cima da pia; a paisagem branca de neve vista na fotografia…

Essa associação de ideias leva-me a refletir que, tal como o frescor, os fatos aparentemente insignificantes do cotidiano (um sorriso, uma flor intensamente colorida em meio ao cinza da cidade, a pipoca no cinema…) podem me propiciar uma sensação agradável, um prazer intensamente vivido, um momento feliz.

Essa “viagem” me enche de inspiração e, assim, escrevo:

 

frescormenoraindaO gelo sobre a pia

derrete enfim

pois nada dura eternamente.

Posso vê-lo se liquefazendo

tomando outros rumos

mudando e se mantendo

seguindo outro destino

o da água que escorre

e vai para o rio

e se integra às nuvens

e cai como chuva

e vira água encanada

e, quem sabe, de novo gelo.

O permanente

diz a filosofia oriental

é a impermanência.

 

Sugestões para a sua “viagem”:

ESPAÇO

SUTIL

VERTIGEM

SUAVE

FULGOR

SONHO

MERGULHO

AFAGO

CANTIGA

SUSPIRO

INFINITO

 

Tudo o mais é poeira de estrelas

imagensnasapoeira5Aceitar o que é.

Nada mais difícil.

Pois o que é, em geral, não tem nada a ver com o que gostaríamos que fosse.

Voltamos ao passado, em busca da pessoa, pessoas ou situações que nos trouxeram a esta realidade de que não gostamos e que, por isso, não aceitamos.

Se ele/ela tivesse agido de outro modo comigo; se eu tivesse reagido de outra forma àquela situação; se eu tivesse me posicionado de um jeito diferente…

Talvez nos projetemos no futuro, em busca daquela realidade que gostaríamos de vivenciar hoje.

Quando eu tiver isto ou aquilo, poderei me posicionar como quero; quando tiver isto ou aquilo, tudo vai mudar; quando alcançar o que quero, as pessoas vão ver como sou de fato…

Enquanto vivemos no passado ou no futuro, o presente escorre por entre nossos dedos, desaproveitado. E nos sentimos tristes, desanimados, frustrados, infelizes.

Aceitar o que é tem a grande vantagem de nos dar base sólida para qualquer mudança que queiramos fazer em nós e em nossa vida.

Tudo o mais é poeira de estrelas.

O ponto de vista do observador

 knutunico1Ser rejeitado, qualquer que seja a circunstância, é um sentimento doído, que abala a confiança em si mesmo e põe por terra toda a autoestima construída com tanto esforço.

Não importa muito de onde vem a rejeição – familiares, amigos, colegas… -, o que importa é a dor sentida e a forma como lidamos com isso.
Toda essa imensa mágoa, no entanto, talvez pudesse  se resumir a uma questão de perspectiva. Quem é o observador?

  

Ao estudar o microcosmo dos elementos atômicos – componentes essenciais do tecido formador da realidade em que vivemos – os cientistas estranharam o comportamento das partículas – os microscópicos “pontos” de matéria que compõem a estrutura do átomo. Ao fazer experiências, observaram que as partículas podem se comportar simultaneamente como ondas.

Buscando detectar quando os elementos atômicos agiam como partículas e quando se comportavam como ondas, os estudiosos foram surpreendidos com a constatação de que só dependia deles obter um ou outro resultado.

Verificaram que a natureza do comportamento dos elementos atômicos se estabelecia pela expectativa expressa do observador. Onde se esperava encontrar partículas, lá estavam elas; onde se esperava encontrar ondas, também lá estavam elas.

Era como se o esperado se refletisse na experiência ou, explicado de outra maneira, não existiriam propriedades objetivas na realidade, independentes da mente do observador. A esse “fenômeno” foi dado o nome de “colapso da função de onda”.

 

Quem é o observador quando nos sentimos rejeitados? Nós ou o outro?

Será que estamos partindo do ponto de vista do que pensamos sobre nós ou do que supomos que o outro pense sobre nós? Há de fato uma rejeição ou simplesmente um “não estou nem aí”. Isso porque o outro – e somos o outro em muitas situações – tem mais com o que se preocupar, como suas próprias inseguranças e medos.

Assim, será vantajoso dar ao outro – um ser humano tão cheio de incertezas quanto nós – esse tremendo poder? De decidir, avaliar, dar peso e forma ao nosso valor?

Cultivar a rejeição só parece ser vantajoso quando se transforma em justificativa para não olharmos para nós mesmos, em busca do nosso próprio valor.

 

 “Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?”
em poema de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Soneto do amor eterno

perfisrosas

Um do outro distantes, somos apenas

lembranças que a memória confunde

Próximos, no entanto, sempre estaremos

enquanto vibrar o amor que nos une


Não importa que o fado, nesta vida,

nos seja desfavorável e, severo,

impeça as trocas de um afeto

que vem de longe e é sem medida


Pois, etéreo, o amor tende ao infinito

livre de amarras, torna-se eterno

forma indefinida, vira desejo e sonho


O amor, incompleto na realidade vivida,

paira acima das atribulações do mundo

como um estender-se sereno e profundo

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